Blog 04 maio 2026

Liderar na era da AI: eficiência ou transformação?

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Há ainda muitas empresas a operar com modelos de gestão tradicionais, pouco dinâmicos e fortemente assentes em controlo. Apesar de, à partida, poderem parecer pouco atrativos, a verdade é que continuam a funcionar para um número significativo de pessoas — muitas vezes porque oferecem previsibilidade e menor exposição ao risco individual. Executar o que é pedido, dentro de estruturas bem definidas, pode ser mais confortável do que assumir responsabilidade, tomar decisões e lidar com a incerteza.

Neste contexto, a evolução recente da Inteligência Artificial abre um conjunto de oportunidades particularmente interessantes para este tipo de organizações. Empresas com processos mais rígidos e bem estruturados tendem, paradoxalmente, a ter um terreno mais preparado para a adoção de soluções baseadas em AI, precisamente porque os seus fluxos de trabalho são mais previsíveis e normalizados. A integração de tecnologias como o Microsoft Copilot, o Azure OpenAI Service ou o Power Automate pode permitir ganhos relevantes em eficiência operacional, rapidez de execução e consistência nos resultados.

Por exemplo, tarefas repetitivas e baseadas em regras — como processamento de dados, geração de relatórios ou apoio ao cliente de primeira linha — podem ser parcialmente automatizadas, reduzindo o tempo de resposta e minimizando o erro humano. Ferramentas como o Microsoft Power BI permitem ainda transformar grandes volumes de dados em insights acionáveis, apoiando decisões mais informadas ao nível da gestão. Para estruturas hierárquicas mais tradicionais, esta combinação de maior velocidade, maior precisão e potencial redução de custos operacionais tende a ser particularmente apelativa.

Por outro lado, existe um conjunto crescente de empresas que está a seguir uma trajetória distinta. Em vez de utilizar a tecnologia apenas como um mecanismo de eficiência, estas organizações estão a repensar o seu modelo de funcionamento de forma mais profunda. Apostam em redes de colaboração, em estruturas menos rígidas e numa maior valorização da componente humana — reconhecendo que a capacidade crítica, criativa e adaptativa das pessoas continua a ser um fator diferenciador.

Nestes casos, a AI é integrada como uma ferramenta de amplificação das capacidades humanas, e não como um simples substituto. Soluções como o Microsoft Teams, combinadas com AI generativa e analytics avançado, permitem criar ambientes de trabalho mais colaborativos, onde a partilha de conhecimento e a tomada de decisão distribuída ganham relevância. A tecnologia suporta, mas não substitui, a inteligência coletiva da organização.

O resultado é a coexistência de dois “ritmos” distintos no tecido empresarial. Por um lado, organizações que evoluem através da otimização e automatização dos seus modelos existentes; por outro, empresas que se reinventam estruturalmente para responder a um contexto cada vez mais dinâmico e competitivo. São, de certa forma, dois campeonatos a decorrer em paralelo, com velocidades e ambições diferentes.

Independentemente do posicionamento, há um ponto que permanece claro: existe ainda um amplo espaço de melhoria, sobretudo no setor dos serviços. Mais do que uma adoção superficial de “robots” ou interfaces conversacionais, o verdadeiro desafio está na otimização dos processos end-to-end — simplificar, eliminar redundâncias e redesenhar fluxos de trabalho com base em dados e tecnologia. Só assim será possível capturar, de forma sustentável, o valor que a Inteligência Artificial tem efetivamente para oferecer.

 

por Rita Herédia Cordovil, Managing Partner na Luza